segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Milícia atua com segurança clandestina de comércios no Centro de Fortaleza



A recente prisão de um homem armado reforça as suspeitas de que um grupo esteja atuando como milícia na Capital

Uma investigação que vem sendo desenvolvida há algumas semanas revelou que a Polícia do Estado do Ceará pode estar diante de mais um grupo de vigilância clandestina que vem atuando no Centro de Fortaleza.

O grupo seria formado por homens armados, alguns deles cadastrados pela Polícia Federal como vigilantes, que estariam trabalhando para comerciantes do bairro e agindo contra vendedores ambulantes e moradores de rua. Algumas ações criminosas já ocorridas no Centro, nos últimos meses, estão sendo atribuídas à milícia, mas a Polícia prefere ainda não confirmar os casos.

Prisão

A Reportagem tomou conhecimento da investigação a partir da prisão de um vigilante, na noite da última terça-feira (20). Pedro Jorge Santos Nascimento, 30, vigilante cadastrado e com registro de técnico em segurança privada, foi flagrado na Rua Edgar Borges - nas proximidades do prédio da Delegacia Geral da Polícia Civil, no Centro - armado com um revólver de calibre 38 escondido dentro de uma mochila. Além da arma, havia seis cartuchos intactos.

O vigilante estava numa moto preta e trafegava pela rua quando chamou a atenção de policiais militares da 5ª Companhia do 5º BPM (Centro), que faziam uma ronda ostensiva. "Sob determinação do comandante geral, coronel Werisleik Matias, estamos intensificando as abordagens na área. Toda situação suspeita é verificada pelos PMs", destacou o major Teófilo Gomes, comandante da 5ª Companhia do 5º BPM.

Reagiu

Segundo o oficial, Pedro Jorge ainda tentou resistir à prisão e foi levado ao plantão do 34º DP, onde acabou autuado em flagrante por porte ilegal de arma. Segundo a Polícia, ele já respondeu a processos por lesão corporal dolosa - em abril do ano passado -, e tentativa de homicídio, em janeiro de 2010. "Mas, hoje pela manhã, já havia sido liberado", afirmou o comandante da 5ª Cia. do 5º BPM na última quarta-feira.

Ainda de acordo com o major Teófilo, a prisão de Pedro Jorge pode ter acrescentado novos elementos à investigação que vem sendo feita no bairro.

"O caso está sendo apurado pelo 34º DP. Ainda não podemos dizer muita coisa. O que pode ser dito, no momento, é que se trata de um grupo contratado por comerciantes do Centro para vigilância e que este grupo tem agido contra vendedores ambulantes e moradores de rua", ressaltou.

Apreensões

Com mais este revólver, soma-se um total de cinco armas de fogo apreendidas pela 5ª Cia. do 5º BPM, em apenas cinco dias. Das cinco armas, quatro foram revólveres de calibre 38 e um revólver de calibre 32. Duas das armas estavam em poder de um traficante na Rua Liberato Barroso, no Centro da cidade. Outros dois revólveres foram apreendidos em ações da Polícia Militar nos bairros Joaquim Távora e São João do Tauape. "O comandante do 5º Batalhão (tenente- coronel Francisco Souto) tem acompanhado este trabalho que visa motivar os policiais a fazerem mais abordagens e apreenderem mais armas. As apreensões são recompensadas pelo Governo do Estado", lembrou.

No começo do mês, a PM intensificou as ações ostensivas no Centro com o desencadeamento da operação ´Duas Rodas´, que teve como alvo motocicletas. Este tipo de veículo é o mais usado nos assaltos ´saidinhas´ e ´chegadinhas´ contra clientes de bancos.

PROTAGONISTA

ENTREVISTA

Armado

Pedro Jorge Santos Nascimento

Uma patrulha da Polícia Militar fazia rondas no Centro, quando abordou um suspeito. Era o vigilante que estava armado com um revólver. A prisão dele levou as autoridades a acreditar que o acusado faça parte de um grupo que está agindo de forma clandestina no Centro da Capital, dando proteção a comerciantes e expulsando daquela área moradores de rua e ambulantes. No começo do ano, a Polícia já havia descoberto que um oficial da própria PM estaria comandando uma milícia para dar proteção aos vendedores de produtos falsificados, como CDs e DVDs ´´piratas´.

PROTEÇÃO À PIRATARIA

Outra milícia foi descoberta neste ano

Também neste ano, outra investigação levou a Polícia Civil à descoberta de uma milícia chefiada pelo primeiro tenente da Polícia Militar, Jairo da Silva, o ´Robocop´. Jairo foi acusado de comandar o grupo que agiria no Centro da cidade dando proteção a vendedores de CDs e DVDs falsificados.

A polêmica em torno do nome do oficial veio à torna ainda no começo do ano, quando ele foi acusado de comandar um grupo de homens armados que dariam proteção aos vendedores de CDs e DVDs ´piratas´ nas ruas do Centro de Fortaleza.

A denúncia partiu da secretária executiva do Centro, Luíza Perdigão, que esteve em um encontro com o Delegado-Geral da Polícia Civil, Luiz Carlos Dantas, e pediu proteção. Luíza alegou ter recebido as ameaças diretamente do tenente.

Diante do fato, o secretário da Segurança Pública e Defesa Social, coronel Francisco José Bezerra, determinou ao comandante-geral da PM, coronel Werisleik Matias, que fosse instalado imediatamente um Conselho de Justificação (disciplinar) para apurar o fato.

Paralelamente ao ato na instância militar, a Polícia Civil, através do 34º DP (Centro), instaurou um inquérito policial. O tenente Jairo, que foi candidato a deputado estadual pelo Partido da Mobilização Nacional (PMN), apresentou-se na Polícia e negou todas as acusações.

Com a decisão do Conselho de Justificação, o tenente Jairo, que era destacado no 4º BPM (Canindé) e estava de licença para tratamento de saúde, pode ser expulso da Corporação.

Em agosto deste ano, Jairo da Silva foi preso depois de protagonizar mais uma atitude de insubordinação. Apesar de estar afastado da tropa por meio de uma licença e já próximo de ser expulso da Corporação, Jairo foi detido após uma perseguição policial pelas ruas e avenidas dos bairros Porangabuçu e Benfica.

Segundo informações do Comando da PM, o militar trafegava em alta velocidade pela Avenida José Bastos em seu veículo, uma caminhoneta modelo Prado, cor preta, com vidros totalmente escuros. A atitude levantou a suspeita de uma patrulha do Batalhão de Polícia de Choque que fazia o policiamento naquela área da Capital. Uma viatura do Comando Tático Motorizado iniciou a perseguição à caminhonete ainda na Avenida José Bastos e o guiador da Prado não obedeceu a ordem de parar o veículo. A equipe, que era comandada pelo capitão Oliveira, pediu reforço e, em poucos minutos, outros militares fizeram um cerco na área. O carro só foi abordado na Avenida Eduardo Girão, depois de ser ´fechado´ por várias viaturas.

Para surpresa dos militares, o homem que guiava a caminhonete era o tenente Jairo, armado com uma pistola de calibre 380 milímetros. Além disso, estava fardado. Dentro do carro também foram encontrados três carregadores da pistola, um par de algemas e uma carteira da PM. ´Robocop´ foi autuado por crime de desobediência, conforme o Código Penal Militar, e recolhido ao Presídio.

Multidão

600 mil pessoas chegam a passar todos os dias pelo Centro da Capital cearense. A população flutuante sofre com diversos problemas na área, entre eles, a ocupação irregular das vias.

CASARÕES ABANDONADOS

Comerciantes à mercê da violência

Traficantes de drogas, assaltantes, arrombadores e ladrões de veículos agem constantemente nas ruas do Centro de Fortaleza. As prisões são corriqueiras, mas não dão vencimento aos delitos praticados na malha central.

Em 30 de maio deste ano, o Diário do Nordeste publicou uma reportagem especial sob o título "Centro sofre com a violência", que retratava a marginalidade que estava ocupando os casarões antigos do Centro de Fortaleza, que nas décadas de 50 e 60 foram ocupados por famílias tradicionais, em ruas como Princesa Isabel e Teresa Cristina.

Atualmente, estes locais se transformaram em refúgio de marginais. Assaltantes, arrombadores e pequenos traficantes agora ocupam o espaço em meio a famílias humildes vindas do Interior do Estado ou da periferia da Capital que moram ali de aluguel.

Um desses casarões, situado na Rua Teresa Cristina, entre as ruas São Paulo e Senador Alencar, passou a ser conhecido na área como ´Carandiru´, numa referência ao antigo presídio paulista palco de uma carnificina em outubro de 1992, quando um massacre deixou 111 detentos mortos durante rebelião.

É neste ´Carandiru´ à cearense que marginais se escondem durante o dia para, à noite e nas madrugadas, atacarem comerciantes e transeuntes que saem do Centro para suas casas.

FERNANDO RIBEIRO/NATHÁLIA LOBO
EDITOR DE POLÍCIA/SUBEDITORA
 
Diário do Nordeste


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